Ser criança e crescer brincando

“O que a psicanálise nos diz de mais importante a respeito das pessoas? Ela nos fala a respeito do inconsciente, da vida profunda e oculta de cada indivíduo humano que tem raízes na vida real e imaginária da infância mais precoce.” *

E o que isso nos diz enquanto pais, mães, educadores?

Que o que a criança vive enquanto criança fica registrado e faz parte do adulto que será e mais, influenciará diretamente seu comportar e agir quando crescer.

Então, é por isso que insistimos que a criança precisa brincar, fantasiar, imaginar, criar e ser criança e agir como criança. E assim ela vai se desenvolver, assim vai crescer, aprender e formar cada parte de sua persona.

Agir como criança também é chorar quando não consegue dizer;

Agir como criança também é querer brincar e não ter noção da hora de tomar banho, ir para a escola, almoçar…

Agir como criança também é tentar brigar pelo que quer e não saber como e chorar mais;

É cansativo para nós adultos sim, eu sei, e como!

Mas, coloque se no lugar dela… existe coisa melhor do que se entregar a uma coisa que dá prazer sem preocupar com nada a mais? Isso é brincar!

“No inicio, o real e o imaginário são uma única coisa, pois a criança não apreende o mundo de modo objetivo, mas vive num estado subjetivo, em que é a criadora de todas as coisas. Gradualmente, a criança saudável torna-se capaz de perceber o mundo do não-eu; para alcançar esse estado, precisa ser cuidada de modo satisfatório durante a época de dependência absoluta.” *

A criança ainda não diferencia o que é de fato, não consegue saber da consequência ou da sequencia de seus atos.

Nós estamos junto para isso! Para norteá-la. Nós somos o “manche” e o condutor por um período. E nos cabe proporcionar formas de aprender sobre a vida.

Ora, imagine como é confuso para uma criança…

A mãe leva a filha a uma praça para brincar com as outras crianças, chegando lá as crianças estão brincando de correr, querem percorrer toda a praça e explorar todo o espaço… a mãe então fala para a filha, “não quero que você vá para aquele lado”… “mas mãe, nós estamos brincando de pique pega” “eu sei, mas não quero que você vá pra longe, se não, vamos embora!”

“Mas então porque ela me trouxe para brincar na praça se não posso brincar? Mas porque as outras crianças podem?”

No mínimo um questionamento válido, não é?

Mas se a criança interpela a mãe, é tida como respondona e que não quer obedecer, porque afinal, filhos tem que obedecer os pais, porque os pais sabem o que é melhor para os filhos…

Bom, não estou dizendo que os filhos tem que responder os pais, e nem que temos que ser irresponsáveis e liberá los para tudo o que quiserem. Não é isso!

Mas, estou dizendo que precisamos nos esforçar mais nos nossos discursos e posições com as crianças, porque elas só querem diversão e prazer, e nós é que vamos encontrando formas de mediar esse prazer (brincar) e o desprazer (parar de brincar para ir pra casa).

Neste caso da pracinha… a mãe não poderia estar mais perto enquanto as crianças percorrem a praça e brincam ao invés de cortar a brincadeira?

Precisamos encontrar formas de, entendendo a necessidade desse prazer, contrapor com a realidade que nós, adultos, sabemos, mas que não seja confuso para elas. Tudo vai depender da forma como falarmos e agirmos. Com atenção e acolhimento ou autoritarismo e rigidez.

Não, não tenho uma regra, faça assim e dará certo; fale isso e será atendido. Quem me dera ter essas respostas! Ou não, na verdade, considerando que casa pessoa tem seu jeito eu não queria ter respostas prontas porque estaria “engessando” alguém e tirando dela a possibilidade de descobrir outras respostas e formas.

Mas, cada mãe, pai e filhos vão descobrindo suas formas de crescer. Precisa atenção. Atenção aos limites de cada um; atenção ao gosto de cada um; atenção às possibilidades de cada um…

Comigo funciona assim: Penso, o que eu queria se estivesse no lugar dela (minha filha)? Como seria mais fácil entender minha mãe? E então tento me comunicar com minha filha dessa forma, tenho que passar o Real, as necessidades, a hora, os perigos e mostrá-la que entendo que brincar é bom demais e eu queria poder ficar brincando também, mas agora precisamos …

Não sem choro e questionamentos e cenas… mas significa que ela esta crescendo e lutando por ser alguém e não uma boneca que posso controlar.

  • Trechos da palestra de Winnicott proferida na Oxford University Scientific Society, 19 de maio de 1961 – Psicanálise e ciência: amigas ou parentes? Livro: Tudo começa em casa – D.W. Winnicott

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